terça-feira, 9 de julho de 2024

Vinho: Pedro Milanos rosé 2023 (13%) | Luísa Valente - 15 euros

Omnívoros: 83

Uvas provenientes da Quinta Senhora da Graça, graciosamente debruçadas sobre o Douro. As castas Tinta Barroca e Touriga Nacional, vinificadas em inox com bâtonnage periódica apresentam-se com grande pujança aromática e cor rosada ligeira. Na boca o comportamento é intenso com alguma complexidade. Comprimento apreciável, final de boca cítrico e floral, graças à frescura - acidez e estrtutura - bem construída. Prato: Esparguete com amêijoas.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Vinho: Duas Quintas Douro tinto 2022 (13%) | Adriano Ramos Pinto - 15 euros

Omnívoros: 91

Há marcas de vinho cuja história e resiliência transcendem e desafiam a objectividade. Em mais de 35 anos de carreira, não me lembro de não haver Duas Quintas. Recordo-me dos Reserva 91 e 92, absolutamente magistrais e de como isso me fez ficar fã do Duas Quintas "simples". Este de 2022 é um tratado de elegância, harmonia e sobretudo excelente enologia, sobretudo face ao ano repleto de adversidades.  O nome decorre das duas quintas do Douro Superior de que provém: Quinta dos Bons Ares (600 metros de altitude) e Quinta da Ervamoira (150 metros). Só por si, este facto dá já uma ideia da complexidade a um tempo frutada e mineral que o vinho disponibiliza, mas vai mais além, e é de facto um regalo no copo e à mesa. Encepamentos de Touriga Nacional (56%), Touriga Franca/Francesa (23%) e outras castas típicas do Douro (21%). vinificação em perfis diversos, como lagares de granito, balseiros, cubas de betão e cubas inox, dependendo das castas e origem. Após a fermentação maloláctica, 20% estagia em barricas de carvalho francês, 30% em toneis e balseiros do mesmo tempo de madeira e 50% em inox, ao longo de cerca de doze meses. Tudo neste vinho é a um tempo intenso e elegante, e por isso mesmo, sedutor. Taninos muito finos, acidez correcta e forte aptidão para a mesa. Prato: Vitela assada.

domingo, 7 de julho de 2024

Vinho: Pedro Milanos Douro branco 2023 (14%) | Luísa Valente - 15 euros

Omnívoros: 87

É desarmante a abordagem que o enólogo Vasco Valente Lopes faz a cada novo vinho que cria. O seu espaço de liberdade é o das maravilhosas vinhas da sua Quinta Senhora da Graça, que namoram o Douro com total volúpia e rendição. Produzido a partir de uvas próprias das castas Arinto, Viosinho, Códega e Malvasia Fina, este branco fermentou e estagiou em inox sobre as borras finas, com bâtonnage periódica. Notas aromáticas muito rigorosas e bem definidas, evocativas de malmequeres, nêspera e ligeiro mentolado. Na boca é muito fino e delicado, revelando bom poder de resolução graças a uma acidez bem urdida, Muito fresco em todas as fases da prova, final longo e frutado. Prato: Bacalhau à Conde da Guarda.

Vinho: Esporão Reserva Alentejo branco 2023 (14%) | Esporão - 19 euros



Omnívoros: 90

O lote de castas escolhido não surpreende: Antão Vaz, Arinto e Roupeiro. Assinatura bem alentejana, trabalho de estágio misto inox e barrica, com uma surpreendente elegância e fantástica integração. Sente-se ainda a presença de madeira, tanto no nariz como na boca, através de notas de fumo, baunilha e amanteigados. Eminentemente cítrico no nariz, na boca mostra notas exuberantes de diospiro maduro e ananás. Comprimento apreciável, termina longo em flores silvestres e gengibre. Prato: Sopa de tomate à alentejana com todos.

Vinho: Mainova Verdelho Alentejo branco 2023 (12,5%) | Mainova - 13 euros

Omnívoros: 88

Um estreme de Verdelho com uma acidez bem urdida, expressão do terroir bem alentejano. António Maçanita e Sandra Sárria conhecem bem as cepas e os solos deste projecto único e que nos tem dado tantas alegrias. Bárbara Monteiro é a gestora do projecto e ao mesmo tempo a principal entusiasta. Aromas eminentemente cítricos complementados por notas de vagens verdes, frescura não falta. Na boca revela uma excelente acidez, pouco frequente nos solos alentejanos. O vinho está por isso capaz de desafios de monta, desde o simples petisco até ao prato mais elaborado. Prato: Ensopado de borrego.

sábado, 6 de julho de 2024

Vinho: Burmester Ensaio N.º01 Douro branco 2023 (13%) | Sogevinus - 10 euros

Omnívoros: 86
Início de uma nova linha de vinhos com a chancela Sogevinus, com a habitual batuta enológica de Ricardo Macedo. O racional por detrás da nova família é reunir castas contrastantes num mesmo vinho. Alvarinho (65%)  e Sercial (35%) são as castas eleitas para esta primeira edição, numa junção muito feliz. Uvas provenientes de vinhas de cotas entre 400 e 500 metros, regiões Douro Superior e Cima Corgo. Fermentação estágio nas borras finas em inox ao longo de 25 dias. No nariz é copioso nas notas tropicais e cítricas, enquanto na boca se mostra austero e com sugestões de fruta branca cozida. Belíssima frescura. Prato: Sushi.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Comida: O hambúrguer, signo e significado

Parece que nem tudo está perdido. Vislumbra-se o imperativo de consciência de cada um se ocupar de saber o que come. Picadinhos, carnes, gorduras e entremeadas conseguem produzir sabores de que gostamos em criações diversas, incluindo as caseiras. O momento é de saber mais.

Sou a favor do progresso e o corolário natural deste postulado é que sou contra o preconceito. O hambúrguer, que em alemão quer dizer «de Hamburgo», resolveu na história da alimentação humana a dificílima equação de «uma refeição por um dólar». Dos Estados Unidos, a nação que o mundo adora odiar pelos seus costumes supostamente bárbaros, surgia, com o hambúrguer, a corrente imparável da dita fast food: serviço rápido, dispensa de talheres e facilidade de conservação foram alguns dos aspectos que desde cedo atraíram a comunidade internacional, abrindo o caminho de grandes cadeias de restaurantes de comida rápida. Depois subiu a indústria de bebidas gasocarbónicas, com a Coca-Cola e a Pepsi a terem de pagar a fatura da obesidade infantil, do colesterol e de acidentes vasculares. Agora, sabemos da tragédia calórica e das perturbações do metabolismo provocadas pelo pão, pelas batatas fritas, maioneses, mostardas, ketchups e muitos outros «venenos» que a humanidade passou a consumir sem procurar qualidade. As colas não são, afinal, o único monstro da história. De repente, já não é a fome que se combate, em vez disso passou-se à necessidade absoluta de fartura, de muito. Em toda a parte.

A McDonald's, transformada numa espécie de demónio pela opinião pública e pela comunidade que supostamente se interessa pelo que dá de comer aos seus filhos, tem sistemas de controlo de qualidade alimentar que ultrapassam o exigido e o exigível. Criou em torno do seu nome uma exigência sobre os fornecedores a que poucos conseguem corresponder. Recordo aqui, a propósito, uma viagem que fiz ao Reino Unido, em Worcestershire, para falar com criadores de bovinos para fornecerem a McDonald's e constatar in loco como as coisas estão sérias no plano das exigências. Tenho a certeza de que corremos mais riscos quando comemos hambúrgueres congelados de hipermercado, ou mesmo quando os fazemos em casa a partir de preparados de carne picada que se vendem nos talhos. Oxidada, cheia de micro-organismos próprios da decomposição, quando não mesmo imprópria para consumo, essa carne só não levanta suspeitas ao consumidor porque é «fresca». Não podia haver maior engano. E como tudo o que aqui digo, e poderia dizer, está disponível na internet, pergunto-me porque não se informam todos melhor sobre o que comem e dão a comer. Na base de tudo o que é industrial está a busca de rendibilidade e de quantidade a custo contido. É o progresso. No que respeita à comida não é muito diferente. A julgar pela profusão de cozinheiros, empresários e criadores que hoje se ocupam a fazer do hambúrguer um produto nobre, o bife de molde circular, nasceu para mitigar a míngua, está a servir de passe para aliviar a crise. Saboroso, saudável e criativo, como convém. É altura, portanto, de afastar o preconceito e procurar saber mais sobre tudo o que comemos. Até hoje, a única coisa que o hambúrguer não conseguiu.


(Repescagem de um texto publicado no DN em 2013)