sexta-feira, 5 de julho de 2019

Frescos, salinos e minerais, a nova vaga

É notável o que está a acontecer na enologia nacional, com a pronta e crescente adaptação às alterações climáticas e a demanda de perfis e estilos mais ligeiros e frescos. Com a mineralidade à cabeça, está aí a festa da frescura, grandes vinhos que vão do rosé ao Porto Vintage.

Humildade, estudo e experimentação têm vindo a alterar radicalmente o cenário vinícola em Portugal, e os principais beneficiários são os enófilos amantes da diferença. O jargão utilizado para descrever um vinho inclui hoje obrigatoriamente os termos salino e mineral, em parte pela crescente concentração nas vinhas velhas, em parte também pela ousadia dos produtores, substituindo tabus por conhecimento. A enologia é uma profissão fundamental de base científica, a que se deve juntar o enveredar por caminhos não usados. A Poças, produtor 100% nacional com mais de cem anos de vinhos do Porto e Douro, acaba de colocar no mercado vinhos de grande talante, à maneira de sonda, e a reacção não podia ser melhor. Selecção cuidada de videiras, utilização de técnicas diferentes e obtenção de vinhos originais, um de curtimenta - orange wine -, outro de ânfora. São ambos brilhantes e sobretudo constituem caminho. Idêntica moção animou a Adegamãe a produzir vinhos diferentes do usual, incluindo um estreme de Touriga Franca que mostra uma face diferente da casta em vinhas próximas do mar e latitudes mais baixas. O mesmo mar que tem permitido ao Casal de Sta. Maria a criação de vinhos exemplares, como é o caso da segunda edição do rosé Mar de Rosas, trabalho genial de interpretação de casta e terroir. A incrível adaptação da casta Alicante Bouschet aos solos de Campo Maior e que revela grafite intensa entre os descritores de prova, num vinho de celebração e homenagem a Manuel Nabeiro, fundador da Delta e da Adega Mayor. E depois o grupo mais excitante de sempre de vinhos do Porto que os vintages de 2017 representam, fruto da mesma inquietude e busca da perfeição. Boas provas!

17 - Poças Fora da Série Orange Douro branco 2018 (12,3%) | Manoel Poças Junior - 22,5 euros
Vinho assente em técnicas seculares, cruzadas graças ao talento de Jorge Pintão, chefe de enologia da casa. Sauda-se em particular a moderação alcoólica, e o prazer de beber. Frescura e salinidade fazem dele companheiro excelente à mesa.

17,5 - Poças Fora da Série Ânfora Douro branco 2018 (13,3%) | Manoel Poças Junior - 35 euros
As ânforas onde estagiou este vinho francamente original não tiveram qualquer tratamento prévio, o vinho estagiou nesse ambiente poroso e natural, com o resultado final de grande frescura que se encontra na exploração. Atitude ousada, a de utilizar ânforas no Douro, mas por outro lado… por que não?

18,5 - Adegamãe Terroir Lisboa branco 2014 (12%) | Adegamãe - 39 euros
Vinho notável, sem dourados nem outros atractivos que nos façam estender a mão e levar, mas um verdadeiro tesouro para levar para casa e provar de dois em dois anos. Grande arte enológica por detrás deste néctar, a cumprir o desígnio mais grave e redentor, que é o do futuro.

17,5 - Adegamãe Touriga Franca Lisboa tinto 2016 (13,5%) | Adegamãe - 9 euros
Encontramos esta casta normalmente no Douro e associada à Touriga Nacional, mas este vinho faz-nos pensar sobre a que pode bem ser a casta menos olhada dentre todas as nacionais. Fresco e equilibrado, está aqui um bom demonstrador disso mesmo, notas de alcaçuz e salinas, termina longo e especiado.

18 - Mar de Rosas Lisboa rosé 2018 (13%) | Casal de Sta. Maria - 23 euros
Era fácil perceber que a revolução iniciada na edição de 2017 teria sequela ainda de maior gabarito, mas com esta fica clara a intenção do produtor de fazer um rosé de nível gigante, assim como o compromisso do enólogo Jorge Rosa Santos de se transcender em tudo o que faz das uvas mais atlânticas de todas.

18 - Entretantos Alentejo tinto 2013 (15,5%) | Adega Mayor - 100 euros
É uma homenagem a Manuel Azinhais Nabeiro, fundador do império Delta, que com a neta Rita criou e acarinho o projecto vínico da Adega Mayor. É um 100% Alicante Bouschet, pleno de notas minerais de grafite e é também a um tempo demonstrador da adequação da casta ao terroir e marca de potencial futuro.

19 - Niepoort Vintage Porto 2017 (19,7%) | Niepoort - 90 euros
Harmonia e equilíbrio são as palavras de ordem neste vintage único em que tudo foi posto em causa pelo criador genial de vinhos que é Dirk Niepoort, para chegar a um novo paradigma de vinho do Porto. E como conseguiu! É o mais tânico de todos os vintages Niepoort, mas ao mesmo tempo também o mais mineral e de taninos mais finos de sempre.

19 - Fonseca Vintage Porto 2017 (20%) | The Fladgate Partnership - 100 euros
É um colosso este vintage, pela potência e ao mesmo tempo elegância que mostra, com um grupo de amargos notável, apresentado sob um véu de enorme elegância. Poderoso e fresco, deixa memória que apetece revisitar logo após o primeiro contacto.

19,5 - Quinta da Roêda Sérikos Vintage Porto 2017 (20%) | The Fladgate Partnership - 250 euros
Sérikos quer dizer seda e fixa a memória da plantação de amoreiras para criação de bicho da seda, ao mesmo tempo que evoca a pós-filoxera que pôs o Douro em movimento até aos dias de hoje. As vinhas velhas são o grande património do Douro e o cuidado posto na produção deste vintage são a afirmação da maior dupla enólogo/viticólogo de sempre, corporizada por David Fonseca Guimaraens e António Magalhães.

20 - Taylor’s Vargellas Vinha Velha Vintage Porto 2017 (20%) | The Fladgate Partnership - 280 euros
Um vintage que representa só por si uma proposta de redefinição de vinho do Porto, perfeito no equilíbrio, na força e sobretudo na intenção com que foi feito. Dentro de cem anos, estará ainda e evoluir em garrafa e dele os vindouros dirão que este sim era o mais puro e perfeito. Não há vinho acima do melhor vinho do Porto.

Sem comentários:

Publicar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.