sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Vinho: José de Sousa Mayor Alentejo tinto 2018 (14,5%) | JMFonseca

Classificação Omnívoros: 90
PVP: 25 euros
Grand Noir (55%), Trincadeira (35%) e Aragonês (10%). 8.800 garrafas. Uvas passam inicialmente pelo processo manual de ripanço, em mesa própria. Parte do mosto, películas e 30% do engace fermentaram em talhas, o restante em lagar. Estágio de nove meses em barricas novas de carvalho francês. Vermelho carregado, reflexos carmim. Aromas de chocolate, figos secos e tâmaras. Entrada fresca e equilibrada em boca, sugestões de raspa de toranja e flores silvestres, para logo abrir notas de bom bom on chéri. Viagem vagarosa no palato, para terminar longo e rico. Prato: Costeletas de borrego fritas em azeite e alho.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Vinho: Coruja do Montado Reserva Tejo branco 2020 (14%) | Arlindo Botas

Classificação Omnívoros: 83
PVP: 4 euros
Fernão Pires e Malvasia Fina.  Uvas de vinhedos próprios em Fazendas de Almeirim, Adega da Arriça. Amarelo carregado, ligeiramente nacarado, reflexos dourados. Aromas eminentemente florais, boca com braço forte e copioso na fruta branca de caroço. Evolução no palato a reforçar a tónica frutada. Comprimento médio, final copioso. Prato: Jardineira de vitela.

Vinho: José de Sousa Reserva Alentejo tinto 2018 (14,5%) | JMFonseca

Classificação Omnívoros: 87
PVP: 14 euros
Grand Noir (50%), Aragonês (30%) e Syrah (20%). 15 mil garrafas. Uvas da Herdade do Monte da Ribeira em Reguengos de Monsaraz. Solo granítico. Parte das uvas fermentada em ânforas de barro, outra em lagares, outra ainda em inox. Estágio de oito meses em barricas novas de carvalho francês e americano. Granada profundo. Aromas de fruta escura de caroço cozida, figos e chocolate. Boca de frescura pronunciada, a mostrar equilíbrio e notas balsâmicas. Final longo, ligeiramente especiado. Prato: Cozido de grão.


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Vinho: Poças Branco da Ribeira Douro branco 2021 (12%) | Manoel D. Poças Junior

Classificação Omnívoros: 96
PVP: 55 euros
Arinto (75%) e Códega (25%).  Uvas da parcela da Ribeira da Teja, na Quinta de Vale de Cavalos, Numão. 2.500 garrafas 75cl e 120 garrafas 1,5L. Solos de transição xisto-granito. Castas vinificadas separadamente, fermentação em barrica após decantação. Estágio dez meses em barricas novas de carvalho francês 300L. Floral de grande intensidade no nariz, a revelar um arenito pungente e capaz. Incrivelmente eficaz o dueto que estabelece com a Códega, a redefinir o perfil da casta tal como a conhecíamos até agora. A boca mostra um grupo cítrico assente numa acidez que o Douro raramente conheceu. Tarda um par de minutos até reagrupar no palato, para logo a seguir fulminar com facilidade gorduras, molhos e até sushi, cenário gastronómico que nem a maior ousadia ousou sonhar no grande vale vinhateiro. Enologia genial e sideral, Portugal tem mais um grande branco. Prato: tortilha de batata à espanhola.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Vinho: As Tourigas da Discórdia Alentejo tinto 2020 (14%) | Edual/HVE

Classificação Omnívoros: 86
PVP: 16,5 euros
Touriga Franca e Touriga Nacional. 1.800 garrafas. Fermentação em inox, estágio em barricas de carvalho francês de 300L. Granada profundo. Aromas cítricos a flor de laranjeira e balsâmicos a folha de eucalipto. Boca copiosa e complexa, a sugerir ameixa preta madura e chocolate negro. Final equilibrado  rico. Prato: carne de porco com amêijoas.

Vinho: Herdade do Peso Sossego Alentejo branco 2021 (12,5%) | Sogrape

Classificação Omnívoros: 83
PVP: 5 euros

Antão Vaz (75%), Arinto (20%) e Roupeiro (5%). 380 mil garrafas. Fermentação e estágio inox. Amarelo palha. Aromas de flores brancas e nêsperas verdes. Equilibrado e vibrante até ao final, que é médio e fino. Prato: Frango de churrasco.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Ensaio: Boémia lisboeta e outros fados.

 Pelo fado é que vamos


A noite é muito mais que uma passagem, é lugar móvel e cintilante, pleno de minúsculas nuances que puxam modo, receituário e texturas únicos que nos fazem ficar longas horas à mesa. Desfia-se rosários de memórias, canta-se baixinho e celebra-se a vida no que tem de mais imanente. Vamos a ela?


Sair para ouvir fado mudou na forma mas não tanto no conteúdo. É por exemplo ainda uma experiência com o imperativo do “silêncio que se vai cantar o fado”, momento em que nós, portugueses olhamos de soslaio para os turistas que insistem em não acatar a regra. Continuam na conversa animada e na gargalhada gutural, como se estivessem num bar comum, em que lhes são concedidos todos os direitos. Fingem que não sabem, mas nos clubes de jazz de gabarito internacional sentam-se quietos e mudos, como se de santuários religiosos se tratasse. Confesso que ainda não percebi esta espécie de afasia estrangeira, mas jamais abdicarei de frequentar o fado, os seus copos e as suas mesas. A primeira vez de que tenho memória foi com Alfredo Marceneiro e a sua inconfundível voz, dir-se-ia que de transição, mas fortemente mobilizadora. Era avô e vizinho de amigos e tive a sorte de ser assim iniciado na boémia lisboeta do fado. Em miúdo tinha uma fixação grande na voz do gigante Fernando Maurício, que só viria a conhecer aos 25, mas a que voltei repetidamente depois. De certa forma fui entrando nesse mundo fascinante e exclusivo e aprendi com ele a esquecer-me das horas e dos grilhões. A forma exterior é ruidosa, é certo mas a viagem é sobretudo interior e respeita por isso sempre os princípios fundamentais da boémia.

Aprendi cedo a boa companhia que pode ser um tinto alentejano encorpado, ao reparar numa mesa de quatro pessoas que iam regando o fado com uma garrafa de Mouchão. Dado à experimentação como sou, pedi uma garrafa para a nossa mesa desse mesmo vinho e a ligação com as vozes femininas de contralto por que tanto se pauta o fado ao mesmo tempo que evoca veludo e sensações tácteis tão agradáveis, dei razão aos pacatos foliões. Fez-me lembrar o registo grave de um violoncelo, que sempre associarei à voz de pai, por razões óbvias. Não fui tão espartano quanto eles e pedi linguiça frita para picar e foi o céu. Cheguei a ter vontade de partilhar a linguiça frita em álcool, picantinha e atrevida, mas contive-me e ao mesmo tempo poupei no material, o que os meus companheiros de fado agradeceram. O trabalho do tinto na gordura disponível e abundante, de qualquer forma não deixou de me impressionar muito. Rendição total. Tem mais de duas décadas esta iniciação e nunca mais o pleno aconteceu. Talvez fosse do momento, mas considero que ter passado a dispensar a refeição completa ajudou muito a perceber o fado, a boémia e a boa companhia e o quanto uma sequência gastronómica errada pode ser uma catástrofe.

Os tempos que vivemos hoje são bem outros, distantes do modelo standard rígido do jantar, do inferno dos talheres e do tilintar dos copos brandidos como chocalhos. Por incrível que pareça, surgiu toda uma nova oferta na noite da guitarrada e das vozes perfeitas, trabalho de alma feito com afinco e paixão. Estamos no domínio do esclarecimento, muito mais do que do segredo, e uma casa de fados com uma boa garrafeira e serviço de vinhos pode fazer toda a diferença. 



Rendição na Casa de Linhares 

Beco dos Armazéns do Linho 2

Alfama

1100-559 Lisboa

20:00-2:00

Fecha: Não fecha

Preço médio: 40 euros

Movido pela figura icónica de Jorge Fernando, grande descobridor de talentos, ele próprio talento sempre a considerar, visitei a Casa de Linhares, perto da Casa dos Bicos. Já se chamou Bacalhau de Molho e era daqueles lugares onde se entrava à hora de jantar e só se saía de manhã, o fluxo pelas ruelas era tal que bastava ficar quietos que a acção acontecia. Hoje está mais organizado e além de rebaptizado passou a ter outro estatuto. Se queremos ouvir a fabulosa Fábia Rebordão, é ali que temos de ir, pelo que convém reservar mesa. Oficiam na cozinha dois cozinheiros de truz, Samuel Mota e Ivo Brandão, cheios de sangue na guelra e vontade de igualar nas suas artes os fadistas residentes no canto. O menu Saudade - tinha de ser! - tem praticamente tudo de que é feito o fado à mesa. Custa 70 euros apenas, acrescidos de 15 euros como taxa de espectáculo. Não inclui vinhos, por isso à laia de sugestão atrevo-me a dar largas à inspiração e à fantasia, propondo harmonizações felizes para os diferentes momentos, sem a preocupação de confrontar com as existências em cave. Vejo algumas pessoas a beber cerveja, mas a grande maioria opta por vinho, o que é só por si já um excelente sinal. Clientela repartida, locais e estrangeiros, idades mais diversas, concentração na faixa dos 50/60 anos.

A empreitada começa com presunto e queijo, etapa petisqueira a que ninguém se faz rogado. O presunto é de cura de arejamento, à boa maneira espanhola, pelo que a leitura vínica deve ser de carne fresca. Sabor moderado no sal ornamentado pelos frutos secos, bolota e castanha cozida. Estamos numa casa que junta excelência musical à gastronomia de uma forma inteiramente natural e orgânica, como se tivesse sido sempre assim. Tenho alguma inclinação para a eleger como o melhor restaurante de fado, pela capacidade de nos tirar da cadeira e viajar pelo espaço sideral, onde tempo e espaço se fundem num só. A sequência da refeição corre sem qualquer perturbação que não seja a muito bem vinda intervenção dos brilhantes cantores.
Há um tártaro de atum que não pode deixar de ser conferido, equilíbrio grande de sabores, texturas e até temperaturas, cuidado supremo posto nas diversas harmonias. Sobe o drama quando enfrentemos os brilhantes camarões ao alhinho, picantinho e a desinstalar-nos, pede um bom branco de Palmela. Apesar da vezeira opção pelos croquetes de alheira, aqui sabem a céu, sabores de sempre, texturas felizes que nos fazem regredir quase à infância, pode bem coincidir com um primeiro fado de Fábia Rebordão e aí é mesmo o céu. É forte e inteira a sua voz telúrica, sem falhas e por isso nos entregamos aos pratos seguintes e nos protegemos da lágrima fácil. que fado é sempre canção grave. E vêm para a mesa pataniscas de bacalhau com arroz de tomate que todos achamos que sabemos fazer mas poucos na verdade dominam a especialidade. Crocantes, bem secas de gordura e outros excessos, estão capazes de enfrentar a contenda mais renhida. O arroz de tomate puxa tinto está mais que na altura de nos rendermos a um alentejano de truz. Garrafeira dos Sócios, de Reguengos de Monsaraz é um clássico que puxa às raizes da portugalidade e aqui apetece bem, há bondade no romance entre tomate e tinto encorpado. Ao som de bom e texturado fado vamos ao nível supersónico das emoções. Merecemos bem o prato de conforto que se segue, guisadinho de rabo de boi. O teatro das emoções está ao rubro e nós aqui repousamos. Quem canta fado sofre, é certo, mas que o ouve sofre ainda mais. Mas tudo acaba bem, com um digestivo adequado e um salutar e regenerador creme de limão. Neste momento já estamos em órbita, prontos para mais fado pela noite fora.



O Faia

Rua da Barroca 54

1200-050 Lisboa

Tel. 213 426 742

Chef André Pola

20:00-2:00

Fecha: Domingo

Menus a partir de 65 euros, com fados

Casa de grande tradição, sempre com pergaminhos de excelência, pratos únicos e de sempre. Lucília do Carmo, mãe de Carlos do Carmo e figura icónica da boémia lisboeta, foi sempre - e de certa forma ainda é - a alma da casa, que hoje conhece tempos modernos, a que damos as boas vindas. É uma casa alegre, vinho e comida não nos deixam jamais abandonados nem solitários. A família Ramos representa a jovialidade necessária e a mantença que procuramos e desejamos. É inefável a salada de fígados de aves salteados com vinho Madeira e Pêra Rocha, e sai da cozinha uma sopa de peixe com poejo de antologia. Pede trinados bem repenicados o lombo de bacalhau à Faia e antes de nos entregarmos à tristeza calculada mais vale enfrentarmos a belíssima perna de cordeiro assada. Cardápio longe de magrezas e torturas, que a vida é para se levar com alegria. Olaré, se é! Todos os dias são bons e animados, a cozinha é de truz e a garrafeira é de gabarito.



Mesa de Frades

Rua dos Remédios 139

1100-221 Lisboa

Tel. 917 029 436

19:00-2:00

Menus a partir de 60 euros, com fados

Fecha: Domingo

Colecção notável de figurados de Santo António de Lisboa. A capela de um velho palácio de Alfama foi e continua a ser casa de fadistas de referência, são inúmeros os grandes fadistas que passam por este espaço único nas suas transumâncias habituais. Quando se canta o fado, a porta é trancada, nos intervalos está-se num ambiente muito especial. Ao fim de três ou quatro fados volta a abrir as grandes portas, à maneira da vigília em tempo de novena. Pratos de tacho fantásticos, serviram certa noite uma vitela assada inesquecível. Claro que há bacalhaus muito bons e petiscos ditos simples mas que dão muito trabalho a fazer. A cozinha pode bem puxar pelos galões, daqui ninguém sai insatisfeito. Há vinhos ajustados à clientela e ao cardápio praticado.



Clube de Fado

Rua São João da Praça 86

1100-521 Lisboa

Tel. 218 852 704

20:00-2:00

40 euros por pessoa.

Fecha: Não fecha

Templo do gigante guitarrista Mário Pacheco. Serviço fantástico, silencioso como se quer, discreto e eficaz como se deseja. Alinhamento brilhante de fadistas. Não se cobra taxa de espectáculo quando se vai para jantar. À mesa tem tudo o que nos faz felizes A sala é grande e quando o fado aperta fica pequena, são gigantes os fadistas que aqui oficiam e assim é que deve ser. Há que dizer que se formam aqui muitos profissionais de cozinha e sala que literalmente levam a sua ciência complexa para paragens bem distantes. Todos sem excepção acabam por um dia visitar e nesse sentido faz-nos sentir como num autêntico clube. Não há diferenças de tratamento entre turistas e portugueses, aqui está-se mesmo como em casa. São irresistíveis os cogumelos salteados com presunto de Chaves, e para uma noitada longe não precisamos de mais nada desde que não falhe o Mouchão tinto pelo menos para cumprir a fantasia inicial. Depois temos muito por onde nos espraiar. Se a noite está difícil, basta um copo e um pratinho do dito de Chaves, mas aqui é tudo fácil, há que dar dispensa ao relógio e prometer que até ao primeiro raio de luz da manhã permanecemos. As simples pataniscas de bacalhau com arroz de feijão satisfazem bem, é nesta casa que o polvo à lagareiro é o melhor da cidade e a carne de porco à alentejana prende-nos a alma para sempre. É ir!



Sr. Vinho

Rua do Meio à Lapa 18

1200-723 Lisboa

Tel. 213 972 681

20:00-2:00

55 euros por pessoa.

Fecha: Domingo

Fundado em 1975 por António Mello Correia, Maria da Fé e José Luís Gordo. É lugar mítico, onde perdição e felicidade casam para a vida. Aprendi muito nas seroadas com Paulo Parreira na guitarra, é daqueles músicos que tira tudo do seu coração para nos dar. Estou obviamente a ser injusto para com as dezenas de grandes guitarristas e fadistas que me teleportaram ao paraíso, mas quem não o conhece tem de conhecer ir por ele. Também se vai pela comida e vinhos, ambos nos tratam nas palminhas. A perdiz estufada só perde para a do Solar Bragançano, e é igualmente amor de perdição. A dupla Bacalhau à Sr. Vinho e Bife à Sr. Vinho afina-nos as cordas todas, e é tanta a emoção que até julgamos conseguir cantar fado. Cuidado que é mera ilusão. Quem gosta de um bom tinto bairradino deve atrever-se com o cabrito assado no forno que aqui se processa. Temperado a rigor, pede duelo líquido muito sério e na garrafeira do Sr. Vinho há tesouros para desenterrar.



Fado ao Carmo


Rua da Condessa 52

1200-122 Lisboa

Tel. 912 115 677

19:30-2:00

Menu jantar a 45 euros

Fecha: Terça


António Saraiva e Marta Bogalho na cozinha, Luís Guerreiro na guitarra, Rodrigo Costa Félix fadista e muitos passantes e oficiantes que fazem com que cada noite seja uma experiência radicalmente diferente da anterior. Vá depois das 22:30 para o petisco e a fadistice. São amigos da casa Mariza, Kátia Guerreiro e vários outros, mas é só nesta que encontramos o fantástico doce Karamelo Salgado, criação - adivinharam! - da fadista Kátia Guerreiro. Já que estou nas doces tentações, rendo-me também ao pão-de-ló de Ovar magnífico que aqui se serve. Croquetes de carne, bolinhos de bacalhau, peixinhos da horta, pastéis de massa tenra irrepreensíveis e um pica-pau do lombo de novilho do outro mundo vão amparando as inevitáveis e vezeiras lágrimas, quando optamos pelo petisco, no respectivo horário. A carta de vinhos é acessível e com boas novidades. Sei que se nota que estou a falar de casa de bons amigos, mas sei que depois da primeira visita se vai tornar na vossa casa de fados favorita. Ou mesmo restaurante. Se chegar a tempo e horas para jantar vai ter tratamento de luxo. Bacalhau à Brás daquele que a gente gosta e nunca encontra, bife de atum à algarvia e barriga de porco alentejano são exemplos das delícias que aqui encontra para enfrentar o fado com outra alma.