Delicadeza de sabores, experiência de delícias
As propostas de luxo acessível para a mesa começam a tomar forma, demonstrando a força com que os portugueses sabem e conseguem reagir às contrariedades. Assim é que tem de ser, e o facto de acontecer numa das mais tradicionais cidades do país reforça o conceito.
Braga continua a afirmar-se como pólo vibrante das artes de bem comer em português, com a inevitável escalada da diversidade e qualidade. O assunto do bacalhau é bandeira por estas paragens, e na variante à Braga, com a competente cebola e o copioso azeite, não admite competição sequer. Saltarilham a toda a hora os bolinhos - pastéis - de bacalhau com sede reclamada no arcebispado mais antigo do mundo. Pois é nesta terra de veneráveis que existe um reduto que é preciso conhecer a fundo, pela força com que grita clássico e pela veemência com que anuncia moderno. Dá pelo nome de Delicatum e é obra conjunta de Joana Vieira e André Antunes, dupla vibrante e amante do desafio. É um restaurante sui generis, um bar de vinhos ainda mais exótico. Podemos bem estar no restaurante vínico mais bem sucedido do país, tal a seriedade da proposta culinária de Joana, e o acerto das harmonizações de André. Ou as nossas próprias, a receptividade é total. A algumas coisas reajo mal, caso do “Camarão à Brás” (5 Eur), pelo receio do aviltamento que se vê por toda a parte, forçando designações de que acabamos por perder o rasto. A outras reajo bem, pela simpatia com o vinho que denunciam, como acontece com o “Provolone panado com doce de figo” (5 Eur). Maravilha os “Croquetes de pato com maionese de laranja” (5,5 Eur), quase ambivalentes, tinto ou branco igualmente válidos, desde que haja frescura e equilíbrio, explica-se. Estes fazem parte das Tapas e Petiscos da carta. Os pratos propriamente ditos encontram-se nas Sugestões e aí temos contacto com o universo criativo de Joana Vieira e medimos o seu calibre técnico enquanto cozinheira. “Caril vermelho thai de camarão” (13 Eur) é um bom exemplar da cozinha tailandesa que aqui se declina com conhecimento de causa. Agita os fundamentos mas afina para o palato moderno o “Arroz cremoso de polvo da nossa costa” (13 Eur), clássico de grande folego nos sabores e aromas. Até os mais carnívoros encontram aqui porto seguro, impossível não sugerir a “Posta especial de novilho saturada” (13 Eur), pelo prazer de sentir uma carne que que se desfaz ao entrar na boca. A melhor homenagem, contudo, que se pode render a estes dois bravos, é sentarmo-nos à sua mesa e entrar juntos num novo corredor de experiências. Tardei em começar mas após três experiências, a determinação é total. Parabéns.
Classificação
O lugar - 3,5
A comida - 4,5
O serviço - 4
Delicatum
Rua do Taxa 23
Braga
Fecha: Dom.
horário: 8:00-24:00 (6f e Sáb. até 2:00)
Preço médio: 16 Eur
A refeição ideal
4 tapas da carta à escolha
1 sobremesa partilhada
Garrafa de Vila Real branco
Preço: 32 Eur
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Cais feito abraço, Vila Real
Renunciando ao estatuto estrito da interioridade, o Cais da Villa, em Vila Real, é uma proposta cosmopolita que mostra como requinte e qualidade do produto podem coexistir num registo tradicional de sabor. Bela mesa tem aqui esta cidade.
O tempo vai progredindo em vagarosa mas segura marcha, e as coisas e as pessoas vã-se transformando e adaptando ao que de novo vai acontecendo. A estação ferroviária desactivada de Vila Real foi ermo durante muito tempo e passava por lá apenas quem tinha de ir daqui para ali, sem parar por um minuto sequer. A paz do local, contudo apelou forte a Horácio Negrão, que não pensou duas vezes na hora de investir no projecto do Cais da Villa, hoje a mostrar os seus trunfos. O restaurante funciona no que era outrora o armazém de mercadorias da estação e é impossível não reparar na harmonia e qualidade das instalações de bar e restaurante lá dentro, complementadas por uma esplanada que abraça vilarrealenses até bem tarde. Gins, tapas, música ao vivo de vez em quando, a animação é garantida, mas há que entregar ao troféu a Daniel Gomes, líder da cozinha. Há um trabalho detalhado em cada ingrediente, superado apenas pelo acerto da construção dos pratos, marcados pela forte ligação ao produto, se houvesse que eleger uma virtude apenas; que há mais. Atenção aos legumes, peixes do mar e receituário tradicional. Agora que a alheira passou a entrada - antigamente era prato de truz - está aqui disponível como “Alheira de Mirandela panada” (8 Eur), servida com creme de espinafres, ovo de codorniz e batata palha, balanço feliz entre componentes e coisa mais transmontana seria difícil. No capítulo entradeiro não se deve contudo deixar de debicar o “Camarão salteado com gengibre e geleia de maçã” (14,50 Eur), proposta divertida e saborosa, assessorada por propositados guacamole e maionese de caril. Nos peixes, há um prato de leitura universal que comporta muito do que Portugal é, “Filete de robalo corado com choquinhos à algarvia” (16 Eur) e que exige atenção e conversa. As “Bochechas de porco com molho de vinho tinto do Douro” (15 Eur) merecem conferência, pela suculência da proposta e pelo incrível risotto de favas e chouriço que as acompanha. O ainda jovem chef Gomes conta com Graça Silva no posto da pastelaria, e como trabalha bem! “Bolo de chocolate 72% e morangos salteados com pimenta rosa” (7,50 Eur) é coisa de céu. Genial e surpreendente o “Folhado de framboesas com mousse de mascarpone e ovos moles” (7,50 Eur). E, pasme-se, há “Crepes Suzete” (10 Eur), daqueles que não há quem não goste! Guilherme Osório trata da sala e supervisiona o assunto vínico. Ainda tem de marcar melhor os ritmos de serviço, especialmente na dicotomia de sala cheia ou meia-cheia, e na difícil mas essencial arte da coreografia do serviço. Esta casa, candidata a melhor restaurante de Vila Real, merece. E nós também.
R. Monsenhor Jerónimo do Amaral
5000-570 Vila Real
Tel. 259 351 209
12:00-15:00; 19:30-00:00
Preço médio: 28 Eur
Fecha: Não fecha.
Refeição ideal
Lâminas de polvo marinadas com pickles de legumes (10 Eur)
Joelho da porca assado da gastronomia vilarrealense (22 Eur)
Folhado de framboesas com mousse de mascarpone e ovos moles (7,50 Eur)
Classificação
O espaço: 4
O serviço: 3,5
A comida: 4,5
O tempo vai progredindo em vagarosa mas segura marcha, e as coisas e as pessoas vã-se transformando e adaptando ao que de novo vai acontecendo. A estação ferroviária desactivada de Vila Real foi ermo durante muito tempo e passava por lá apenas quem tinha de ir daqui para ali, sem parar por um minuto sequer. A paz do local, contudo apelou forte a Horácio Negrão, que não pensou duas vezes na hora de investir no projecto do Cais da Villa, hoje a mostrar os seus trunfos. O restaurante funciona no que era outrora o armazém de mercadorias da estação e é impossível não reparar na harmonia e qualidade das instalações de bar e restaurante lá dentro, complementadas por uma esplanada que abraça vilarrealenses até bem tarde. Gins, tapas, música ao vivo de vez em quando, a animação é garantida, mas há que entregar ao troféu a Daniel Gomes, líder da cozinha. Há um trabalho detalhado em cada ingrediente, superado apenas pelo acerto da construção dos pratos, marcados pela forte ligação ao produto, se houvesse que eleger uma virtude apenas; que há mais. Atenção aos legumes, peixes do mar e receituário tradicional. Agora que a alheira passou a entrada - antigamente era prato de truz - está aqui disponível como “Alheira de Mirandela panada” (8 Eur), servida com creme de espinafres, ovo de codorniz e batata palha, balanço feliz entre componentes e coisa mais transmontana seria difícil. No capítulo entradeiro não se deve contudo deixar de debicar o “Camarão salteado com gengibre e geleia de maçã” (14,50 Eur), proposta divertida e saborosa, assessorada por propositados guacamole e maionese de caril. Nos peixes, há um prato de leitura universal que comporta muito do que Portugal é, “Filete de robalo corado com choquinhos à algarvia” (16 Eur) e que exige atenção e conversa. As “Bochechas de porco com molho de vinho tinto do Douro” (15 Eur) merecem conferência, pela suculência da proposta e pelo incrível risotto de favas e chouriço que as acompanha. O ainda jovem chef Gomes conta com Graça Silva no posto da pastelaria, e como trabalha bem! “Bolo de chocolate 72% e morangos salteados com pimenta rosa” (7,50 Eur) é coisa de céu. Genial e surpreendente o “Folhado de framboesas com mousse de mascarpone e ovos moles” (7,50 Eur). E, pasme-se, há “Crepes Suzete” (10 Eur), daqueles que não há quem não goste! Guilherme Osório trata da sala e supervisiona o assunto vínico. Ainda tem de marcar melhor os ritmos de serviço, especialmente na dicotomia de sala cheia ou meia-cheia, e na difícil mas essencial arte da coreografia do serviço. Esta casa, candidata a melhor restaurante de Vila Real, merece. E nós também.
R. Monsenhor Jerónimo do Amaral
5000-570 Vila Real
Tel. 259 351 209
12:00-15:00; 19:30-00:00
Preço médio: 28 Eur
Fecha: Não fecha.
Refeição ideal
Lâminas de polvo marinadas com pickles de legumes (10 Eur)
Joelho da porca assado da gastronomia vilarrealense (22 Eur)
Folhado de framboesas com mousse de mascarpone e ovos moles (7,50 Eur)
Classificação
O espaço: 4
O serviço: 3,5
A comida: 4,5
Em terra de maçãs
Moimenta da Beira tocou a reunir com mais uma edição da Expodemo, uma mostra invulgar de produtos em que a maçã é rainha - a variedade Bravo da aldeia de Esmolfe, “bravo de esmolfe”, é talvez a mais famosa, e os vinhos são de nada menos de três denominações de origem diferentes. Távora-Varosa, Dão e Douro. Estamos em terras do demo, uma zona de grande diversidade de estilos, desde a Malvasia Fina, que se estima ter sido a primeira casta plantada em Portugal, pela mão dos frades cistercienses perto de S. João de Tarouca, até aos espumantes que pelas margens do Varosa, afluente do Douro, se impõem nos lugares cimeiros. Momento para descobrir também os vinhos tranquilos que se fazem por estas bandas, ombreando em elegância com o Dão (granitos) e o Douro (xistos). Ficam aqui alguns destaques e descobertas que fizemos neste evento de que ficámos fãs. Boas provas!
17,5 - Quinta dos Monteirinhos Encruzado DOC Dão branco 2012 | Quinta dos Monteirinhos - 6,8 Eur
Vinho ainda em quase-estreia. Complexidade, frescura e sobretudo longevidade. Foi umas das grandes surpresas da Expodemo deste ano. As vinhas são de perfil granítico e situam-se em Moimenta de Maceira Dão, Mangualde. Há uns toques ligeiramente salgados na boca, e a elegância que possui vai permitir-lhe chegar longe, em termos de evolução. Assim como está já tem bom equilíbrio, ao mesmo tempo que clama por que nos sentemos à mesa com ele. Bom trabalho de enologia.
16 - Terras do Demo Malvasia Fina DOC Távora-Varosa branco 2014 | Coop. Agrícola Moimenta da Beira - 4,5 Eur
A Malvasia Fina como que na sua terra-berço, a mostrar-se a um tempo opção válida como monovarietal vinho e excelente relação preço-qualidade.
17 - Terras do Demo Espumante Távora-Varosa Espumante branco | Coop. Agrícola Moimenta da Beira - 8,5 Eur
Clássico dos espumantes nacionais, premiado em concursos internacionais, óptimo para a mesa numa diversidade grande de pratos.
17,5 - Raposeira Super Reserva Espumante rosé bruto | Soc. Agrícola e Com. do Varosa - 7 Eur
Aqui está mais um sinal de que a empresa que também detém a Murganheira trabalha com um rigor muito raro em Portugal. Em poucos anos, elevou a marca Raposeira aos píncaros. Bravo!
16,5 - Decisão Reserva DOC Távora-Varosa branco 2014 | Quinta das Cepas - 4,75 Eur
Perfil acentuadamente mineral, com notas de trufas e terra húmida. Atentando no preço, percebe-se a grande mais-valia deste vinho, com qualidade a condizer.
17 - Quinta da Carregosa Reserva DOC Douro tinto 2013 | Quinta da Carregosa - 9,5 Eur
Vinho estruturado, bem trabalhado na vinificação e no estágio. De boa raça, mostra-se ainda fechado, ao longo de um par de anos vai desenvolver todo o seu potencial.
16,5 - h’Our DOC Douro branco 2014 | Parceiros na Criação - 7,7 Eur
Complexo e copioso, tanto no nariz como na boca, está aqui um vinho candidato à experiência à mesa com queijos, bacalhaus e, claro, peixe grelhado.
17,5 - Quinta dos Monteirinhos Encruzado DOC Dão branco 2012 | Quinta dos Monteirinhos - 6,8 Eur
Vinho ainda em quase-estreia. Complexidade, frescura e sobretudo longevidade. Foi umas das grandes surpresas da Expodemo deste ano. As vinhas são de perfil granítico e situam-se em Moimenta de Maceira Dão, Mangualde. Há uns toques ligeiramente salgados na boca, e a elegância que possui vai permitir-lhe chegar longe, em termos de evolução. Assim como está já tem bom equilíbrio, ao mesmo tempo que clama por que nos sentemos à mesa com ele. Bom trabalho de enologia.
16 - Terras do Demo Malvasia Fina DOC Távora-Varosa branco 2014 | Coop. Agrícola Moimenta da Beira - 4,5 Eur
A Malvasia Fina como que na sua terra-berço, a mostrar-se a um tempo opção válida como monovarietal vinho e excelente relação preço-qualidade.
17 - Terras do Demo Espumante Távora-Varosa Espumante branco | Coop. Agrícola Moimenta da Beira - 8,5 Eur
Clássico dos espumantes nacionais, premiado em concursos internacionais, óptimo para a mesa numa diversidade grande de pratos.
17,5 - Raposeira Super Reserva Espumante rosé bruto | Soc. Agrícola e Com. do Varosa - 7 Eur
Aqui está mais um sinal de que a empresa que também detém a Murganheira trabalha com um rigor muito raro em Portugal. Em poucos anos, elevou a marca Raposeira aos píncaros. Bravo!
16,5 - Decisão Reserva DOC Távora-Varosa branco 2014 | Quinta das Cepas - 4,75 Eur
Perfil acentuadamente mineral, com notas de trufas e terra húmida. Atentando no preço, percebe-se a grande mais-valia deste vinho, com qualidade a condizer.
17 - Quinta da Carregosa Reserva DOC Douro tinto 2013 | Quinta da Carregosa - 9,5 Eur
Vinho estruturado, bem trabalhado na vinificação e no estágio. De boa raça, mostra-se ainda fechado, ao longo de um par de anos vai desenvolver todo o seu potencial.
16,5 - h’Our DOC Douro branco 2014 | Parceiros na Criação - 7,7 Eur
Complexo e copioso, tanto no nariz como na boca, está aqui um vinho candidato à experiência à mesa com queijos, bacalhaus e, claro, peixe grelhado.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
sábado, 11 de julho de 2015
Arte e Vinho 3. Ilda David e Sangiovese
Ilda David, Tábuas de Pedra (2005)
Vinho: Monte da Ravasqueira Sangiovese Alentejo 2013 | Soc. Agríc. D. Diniz
terça-feira, 9 de junho de 2015
De vez em quando, a profissão
Sobre Ironia
(de Cartas a um jovem poeta, de R.-M. Rilke)
"Não se deixe dominar por ela, sobretudo em momentos estéreis. Nos momentos criadores procure servir-se dela, como de mais um meio para agarrar a vida. Utilizada com pureza, ela também é pura e não nos deve envergonhar. Ao verificar, porém, que se familiariza demais com ela, temendo uma intimidade excessiva, volte-se para os objetos grandes e graves, diante dos quais ela se encolhe desajeitada. Busque o âmago das coisas, aonde a ironia nunca desce; e ao sentir-se destarte como que a beira do grandioso, examine ao mesmo tempo se essa concepção das coisas deriva de uma necessidade de seu ser. Sob a influência das coisas graves, com efeito, a ironia ou o abandonará por si mesma (se tiver sido algo de ocasional) ou então se reforçará (caso lhe pertença como coisa inata) num instrumento sério, enquadrando-se no conjunto dos meios com o que o senhor deverá moldar a sua arte."
Tenho tido o enorme privilégio de trabalhar de perto com pessoas virtuosas, que tenho visto crescer interiormente e consolidar com a experiência um compacto de conhecimento que muito poucos conseguem alcançar. Está sempre tudo ainda por fazer, o caminho perde-se ainda no horizonte, lá longe. Até à "catedral" de Claudel, há muito por fazer, talvez toda uma vida. Mas é caminho. A opção pela humildade - não confundir com humilhação - e o repúdio da ironia asseguram a aportagem segura.
E não se trata de andar "só" a comer pelas mesas deste país, é um trabalho de luta pela autenticidade e genuinidade dos produtos; Respeito pelas regiões e proximidade; Reconhecimento e distinção do que se distingue do resto. Vinhos, comida, receitas, casas, e sobretudo pessoas extraordinárias, que não sairão mais dos nossos corações. É um trabalho de grande entrega. E é por isso mesmo que ninguém sabe mais que ninguém.
É preciso ter a coragem de assumir e ousar. Ousar sempre.
Agora que sei que é possível comungar de forma imanente estas coisas com alguém e partilhá-las sempre, dou por mim a desejar que os meus filhos consigam pegar em dois ou três fios disto que me ocupa o tempo todo e os liguem à catedral que eu, confesso, apenas intuo.
(de Cartas a um jovem poeta, de R.-M. Rilke)
"Não se deixe dominar por ela, sobretudo em momentos estéreis. Nos momentos criadores procure servir-se dela, como de mais um meio para agarrar a vida. Utilizada com pureza, ela também é pura e não nos deve envergonhar. Ao verificar, porém, que se familiariza demais com ela, temendo uma intimidade excessiva, volte-se para os objetos grandes e graves, diante dos quais ela se encolhe desajeitada. Busque o âmago das coisas, aonde a ironia nunca desce; e ao sentir-se destarte como que a beira do grandioso, examine ao mesmo tempo se essa concepção das coisas deriva de uma necessidade de seu ser. Sob a influência das coisas graves, com efeito, a ironia ou o abandonará por si mesma (se tiver sido algo de ocasional) ou então se reforçará (caso lhe pertença como coisa inata) num instrumento sério, enquadrando-se no conjunto dos meios com o que o senhor deverá moldar a sua arte."
Tenho tido o enorme privilégio de trabalhar de perto com pessoas virtuosas, que tenho visto crescer interiormente e consolidar com a experiência um compacto de conhecimento que muito poucos conseguem alcançar. Está sempre tudo ainda por fazer, o caminho perde-se ainda no horizonte, lá longe. Até à "catedral" de Claudel, há muito por fazer, talvez toda uma vida. Mas é caminho. A opção pela humildade - não confundir com humilhação - e o repúdio da ironia asseguram a aportagem segura.
E não se trata de andar "só" a comer pelas mesas deste país, é um trabalho de luta pela autenticidade e genuinidade dos produtos; Respeito pelas regiões e proximidade; Reconhecimento e distinção do que se distingue do resto. Vinhos, comida, receitas, casas, e sobretudo pessoas extraordinárias, que não sairão mais dos nossos corações. É um trabalho de grande entrega. E é por isso mesmo que ninguém sabe mais que ninguém.
É preciso ter a coragem de assumir e ousar. Ousar sempre.
Agora que sei que é possível comungar de forma imanente estas coisas com alguém e partilhá-las sempre, dou por mim a desejar que os meus filhos consigam pegar em dois ou três fios disto que me ocupa o tempo todo e os liguem à catedral que eu, confesso, apenas intuo.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Caracóis e Alta Cozinha
Quando pensamos que um pratinho de caracóis com molho, servido numa esplanada soalheira ao fim da tarde, é coisa popular e acessível, temos de pensar de novo. O minúsculo molusco gastrópode intriga e interessa aos melhores cozinheiros do mundo a ponto de merecer a aplicação total do seu talento e tempo. Coisa de alta cozinha.
Foi no início de do Séc. XIX que o "grand chef" Antonin Carême, borgonhês de gema, recebeu a encomenda de um prato especial que surpreendesse tudo e todos num jantar de homenagem ao czar Alexandre I. Teve o genial cozinheiro a ideia fundadora de preencher os ocos dos caracóis da sua Borgonha com manteiga e alho e levá-los ao forno quente. Êxito total, e início de uma era refinada e requinta, em todo o globo. Um costume popular que visava sobretudo a erradicação de uma praga dos campos, mascarando-a de petisco, chegava aos píncaros da cozinha; às mesas mais nobres. O receituário é hoje longo, nalgumas declinações mais simples de produzir que noutras, seguindo sempre o mesmo fio condutor, que é o sabor. Aromatizamos, enfarinhamos, grelhamos, temperamos, marinamos, panamos, gratinamos, e o sabor do gastrópode faz esquecer o ódio ao bicho que devasta 10 ha de verdura em meio dia. Andam devagar mas sustentadamente, e comem tudo por onde passam; uma verdadeira tragédia. Os criadores de caracóis em estufas têm planos de contingência muito apertados, pois qualquer fuga pode significar uma hecatombe na população mais próxima. Por outro lado, é raro o português que ao fim de semana não vai por esta altura aos caracóis, há-os à meia dúzia por planta. Em casa, lava-se e lava-se a um estrugido de azeite, cebola, alho e louro, depois cobertos com água e vinho branco e ao fim de uma hora estão prontos a temperar e servir os bicharocos, que se exploram à mesa com palitos, gargalhadas e vinho branco, assessorados por pão e manteiga. Portugal no seu melhor.
A oferta aumentou. Não precisamos mais de ir apanhar caracóis nem gastar o nosso precioso tempo a arranjá-los, as opções são múltiplas para quem não dispensa a vagarosa criatura que leva a casa às costas. A receita próxima da de Carême, por exemplo, está hoje disponível em cuvetes com 6, 8 ou 12 unidades, ultracongeladas, que é só levar ao forno. Também encontramos caracóis de conserva, em frascos e latas, e podemos cozinhar de imediato como se fossem nossos. E usamos especiarias, tais como pimenta, caril, noz-moscada, curcuma, orégãos, pimenta e sementes diversas para chegar ao sabor que pretendemos. Os aromáticos salsa, coentros, menta, sálvia, alho, anis também saem para abrilhantar as coisas ainda mais. E processamos legumes diversos para os acompanhar, principalmente tomate, funcho, cogumelos, batatas e espinafres. Depois e sempre, manteigas, óleos, azeites, e os competentes toucinho, anchovas, queijo, massas folhadas e quebradas para produzir pasteis e tartes maravilha. Inefável, depois de conseguirmos aquela receita afinada, um guisadinho de caracóis, entrada de grande efeito entre amigos ou a dois.
Enganámo-nos quando achámos que os nossos chefs iriam declinar o nosso convite, de criar receitas com caracóis para a Evasões. Não só aceitaram instantaneamente o desafio como surpreenderam e impressionaram, o que prova que o caracol e a caracoleta - caracol grande - estão sempre próximos do coração dos inovadores. O fenómeno continua a dar que falar e fazer. José Avillez, do Belcanto, em Lisboa, abraçou a ideia com os ovos de caracol em mente. "A ideia foi servir um caviar da terra com sabor delicado e bem crocante". O xerém de caracóis, enguia fumada e ovos de caracol que criou significa uma "ligação do mar à montanha através de dois ingredientes algo controversos mas que são maravilhosos". Já Kiko Martins (Cevicheria e Talho, ambos em Lisboa), seguiu uma linha purista e - pareceu-nos - quis, com um brilhante tártaro de salmonete com caracóis e maionese de lima e gengibre, recriar a proximidade do salmonete de Sesimbra e caracóis de Setúbal. Bem, dizemos nós. O périplo tinha de incluir Walter Blasevic, do Lisboète, em Lisboa, cozinheiro de escola de alta cozinha francesa felizmente agora a oficiar para os alfacinhas. Deu uma no cravo outra na ferradura! A entrada canónica de de caracóis em persillade sobre royal de alho, coulis de grelos e pimentão doce, evoca claramente a bandeira bourguignonne; e o lombo de bacalhau fresco assado, batatinha recheada com caracóis, pezinho de porco frito e chouriço representa o total controlo e compreensão do gosto português, numa interpretação sofisticada. As soluções apresentadas pelos três chefs não estão necessariamente nas respectivas cartas. E se lhes exigíssemos?
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